Tu
enlouqueces -me
maravilhas -me
atrapalhas -me
apaixonas -me
cegas -me
confundes -me.
Tu inspiras -me.
Tu tu tu tu tu tu .....

Quero tanto de ti e tão próximo
que anseio que fosses o ar,
o chão, as paredes, tudo.

Que tudo o que tocasse 
fossem os teus braços.
Que tudo o que sentisse
fossem os teus lábios.

Como quando fecho os olhos 
e tudo o que não vejo és tu.
Como quando não durmo e
tudo o que sonho és tu.

Contigo não consigo respirar.
Sem ti não consigo viver.

Quero estar tão dentro de ti
que nem a luz do dia exista para mim.
Quero abraçar-te tanto
que todo o mundo colapse
e desapareça num pequeno ponto 
entre os meus braços.

Toca-me com as tuas mãos.
Faz-me desaparecer com a tua pele.
Sufoca-me na tua língua.
Arrasta-me pelo ar com o teu perfume.
Mata-me de vez.

Odeio-te porque existes.
Odeio-te porque não estás aqui.
Amo-te tanto.

De repente tomo consciência 
da tua ausência e faz-se noite.
Porque não me respondes quando te falo?
Porque não te sinto quando estendo o braço?
Porque te escondes?

TU
se fosses chuva,
do céu só cairiam pérolas...
E até o chão gritaria de prazer

Luis Rodrigues 


Limites do Amor

Condenado estou 
a te amar nos meus limites
até que exausta e mais querendo
um amor total, livre das cercas,
te despeça de mim, sofrida,
na direção de outro amor
que pensas ser total e total será
nos seus limites da vida.

O amor não se mede
pela liberdade de se expor 
nas praças e bares, em empecilho.
É claro que isto é bom e, 
às vezes, sublime.
Mas se ama também de outra forma, 
incerta, e este o mistério:

- ilimitado, 
o amor às vezes se limita,
proibido 
é que o amor às vezes se liberta.

Affonso Romano de Sant'Anna 







A noite não tem braços
Que te impeçam de partir,
Nas sombras do meu quarto
Há mil sonhos por cumprir.

Não sei quanto tempo fomos,
Nem sei se te trago em mim,
Sei do vento 
onde te invento, assim.
Não sei se é luz da manhã,
Nem sei o que resta em nós,
Sei das ruas que corremos sós,

Porque tu,
Deixas em mim
Tanto de ti,
Matam-me os dias,
As mãos vazias de ti.

A estrada ainda é longa,
Cem quilometros de chão,
Quando a espera não tem fim,
Há distâncias sem perdão.

Não sei quanto tempo fomos,
Nem sei se te trago em mim,
Sei do vento 
onde te invento, assim.
Não sei se é luz da manhã,
Nem sei o que resta em nós,
Sei das ruas que corremos sós,

Porque tu,
Deixas em mim
Tanto de ti,
Matam-me os dias,
As mãos vazias de ti.

Navegas escondida,
Perdes nas mãos o meu corpo,
Beijas-me um sopro de vida,
Como um barco abraça o porto.

Porque tu,
Deixas em mim
Tanto de ti,
Matam-me os dias,
As mãos vazias de ti.

Pedro Abrunhosa 



Sonhe com as estrelas,
apenas sonhe,
elas só podem brilhar no céu ...

Não tente deter o vento,
ele precisa correr por toda parte,
ele tem pressa de chegar,
sabe-se lá onde ...

As lágrimas ?
Não as seque,
elas precisam correr
na minha, na sua,
em todas as faces ...

O sorriso !!!
Esse, você deve segurar,
não o deixe ir embora ...
Agarre-o !
Abasteça seu coração de fé,
não a perca nunca !

Fernando Pessoa




...hoje sonhei contigo. amanhã
sonharei contigo. depois de
amanhã sonharei contigo, de
novo. e novamente sonharei
contigo, depois, e depois,
enquanto gire a cor dos calendários.
sonho contigo dia e noite. e te
cumprimento, apenas, noite e
dia, e te digo - dia e noite -
as palavras banais de todo o
dia. diariamente sofro a tua
presença, de noite e de dia,
em todas as horas do dia te
sonho de noite, e pela noite
me apareces como o dia - carmim,
rosa, poesia, macia flor, feita
de noite e de dia.

Hélio Pellegrino 
in Minérios Domados




" Tão abstrata 
é a idéia do teu ser 
Que me vem de te olhar, 
que, ao entreter 
os meus olhos nos teus, 
perco-os de vista.

E nada fica em meu olhar, 
e dista teu corpo, do meu ver,
tão longemente,   
e a idéia do teu ser 
fica tão rente ao meu pensar 
olhar-te, e ao saber-me 
Sabendo que tu és, 
que, só por ter-me 
consciente de ti, 
nem a mim sinto.

E assim, 
neste ignorar-me a ver-te, 
minto a ilusão da sensação, 
e sonho, 
não te vendo, nem vendo, 
nem sabendo que te vejo, 
ou sequer que sou, 
risonho do interior 
crepúsculo tristonho 
em que sinto que sonho 
o que me sinto sendo."  

Fernando Pessoa