POEMA XXX.

Para ficar próximo do sempre
tens de decidir-te nos difíceis momentos 
em que,acompanhado, permaneces só.

Cada um pode acreditar no que quiser, 
mas a vitória maior é permanecer 
no coração de quem nos ama.

Neste cemitério que é a vida, 
tens de apelar a uma energia que te supere, 
não àquilo que é divino
mas ao que permanece 
profundamente humano,
ao que te faz descobrir uma outra porta,
aquela por onde o amor não deixa de fluir,
porque o amor derrubará essa porta 
se a mantiveres fechada.

Não percas a noção de que és 
o motor da tua vida,
um impulsionador da realidade, 
nem te envergonhes 
do que dela podes retirar.

Só assim poderás ou voltarás a amar.

Não te adornes com a mentira, 
com a ganância,
com o pouco que tens,
porque sempre terás pouco,
porque sempre o muito 
não fará de ti melhor,
a não ser que semeies para colher,
que dês para receber,
que saibas ensinar 
para aprender todos os dias.

Os momentos mais surpreendentes 
são aqueles em que ofereces, 
não aqueles em que recebes.

Só desse modo poderás sentir-te 
maior do que a distância. 
Só quando caminhares
por dentro de ti mesmo, 
em busca de ti mesmo,
poderás encontrar outros, 
e mais outros, e outros ainda,
em recantos, em ruas, 
nas praias que há em ti.

E verás como esses outros são iguais. 
E como estão próximos 
daqueles que tu amas 
e daqueles que te amam.
Sorri. Já não estás só. 
Há coisas difíceis de abordar
mas que não são problemas. 
Nem talvez soluções.
Procura-te na luz 
que regressa às tuas mãos. 
E nela invoca a moeda de três faces 
com que os pobres compram os momentos 
que a vida nunca tem para lhes dar.

JOAQUIM PESSOA

in O POUCO É PARA ONTEM
Litexa Editora, 2008
.


" […] Seja como for a vida, 
de tão interessante que é 
a todos os momentos, 
a vida chega a doer, a enjoar, 
a cortar, a roçar, a ranger, 
a dar vontade de dar pulos, 
de ficar no chão, 
de sair para fora 
de todas as casas, 
de todas as lógicas, 
de todas as sacadas, 
e ir ser selvagem 
entre árvores 
e esquecimentos. "

Álvaro de Campos




Nós nos amaremos docemente;
Nesta luz, neste encanto, neste medo:
Nós nos amaremos livremente
No dia marcado pelos deuses.

Nós nos amaremos com verdade.
Porque estas almas já se conheciam:
nós nos amaremos para sempre
Além da concreta realidade.

Nós nos amaremos lindamente,
nós nos amaremos como poucos,
no teu tempo.

Lya Luft


Tu
enlouqueces -me
maravilhas -me
atrapalhas -me
apaixonas -me
cegas -me
confundes -me.
Tu inspiras -me.
Tu tu tu tu tu tu .....

Quero tanto de ti e tão próximo
que anseio que fosses o ar,
o chão, as paredes, tudo.

Que tudo o que tocasse 
fossem os teus braços.
Que tudo o que sentisse
fossem os teus lábios.

Como quando fecho os olhos 
e tudo o que não vejo és tu.
Como quando não durmo e
tudo o que sonho és tu.

Contigo não consigo respirar.
Sem ti não consigo viver.

Quero estar tão dentro de ti
que nem a luz do dia exista para mim.
Quero abraçar-te tanto
que todo o mundo colapse
e desapareça num pequeno ponto 
entre os meus braços.

Toca-me com as tuas mãos.
Faz-me desaparecer com a tua pele.
Sufoca-me na tua língua.
Arrasta-me pelo ar com o teu perfume.
Mata-me de vez.

Odeio-te porque existes.
Odeio-te porque não estás aqui.
Amo-te tanto.

De repente tomo consciência 
da tua ausência e faz-se noite.
Porque não me respondes quando te falo?
Porque não te sinto quando estendo o braço?
Porque te escondes?

TU
se fosses chuva,
do céu só cairiam pérolas...
E até o chão gritaria de prazer

Luis Rodrigues 


Limites do Amor

Condenado estou 
a te amar nos meus limites
até que exausta e mais querendo
um amor total, livre das cercas,
te despeça de mim, sofrida,
na direção de outro amor
que pensas ser total e total será
nos seus limites da vida.

O amor não se mede
pela liberdade de se expor 
nas praças e bares, em empecilho.
É claro que isto é bom e, 
às vezes, sublime.
Mas se ama também de outra forma, 
incerta, e este o mistério:

- ilimitado, 
o amor às vezes se limita,
proibido 
é que o amor às vezes se liberta.

Affonso Romano de Sant'Anna 







A noite não tem braços
Que te impeçam de partir,
Nas sombras do meu quarto
Há mil sonhos por cumprir.

Não sei quanto tempo fomos,
Nem sei se te trago em mim,
Sei do vento 
onde te invento, assim.
Não sei se é luz da manhã,
Nem sei o que resta em nós,
Sei das ruas que corremos sós,

Porque tu,
Deixas em mim
Tanto de ti,
Matam-me os dias,
As mãos vazias de ti.

A estrada ainda é longa,
Cem quilometros de chão,
Quando a espera não tem fim,
Há distâncias sem perdão.

Não sei quanto tempo fomos,
Nem sei se te trago em mim,
Sei do vento 
onde te invento, assim.
Não sei se é luz da manhã,
Nem sei o que resta em nós,
Sei das ruas que corremos sós,

Porque tu,
Deixas em mim
Tanto de ti,
Matam-me os dias,
As mãos vazias de ti.

Navegas escondida,
Perdes nas mãos o meu corpo,
Beijas-me um sopro de vida,
Como um barco abraça o porto.

Porque tu,
Deixas em mim
Tanto de ti,
Matam-me os dias,
As mãos vazias de ti.

Pedro Abrunhosa